OS BONS SAMARITANOS DO SÉCULO XXI
21/07/2026
Certo homem descia pela Avenida José Gomes Duda, com destino à Unidade Básica de Saúde (UBS), às seis horas, enquanto ainda estava escuro, quando, de repente, quatro meliantes o abordaram de forma agressiva, esbravejando: “perdeu, perdeu, passa tudo o que tem de valor”. Como a única coisa que ele tinha de valor era um relógio, o qual pertenceu a seu avô paterno, ao seu pai e, agora, lhe pertencia, então, movido por forte emoção, reagiu ao assalto, porém, covardemente, foi agredido, ficando ao chão, atordoado pelos golpes.
Ocasionalmente, passava por ali um coach. Ao vê-lo caído, parou e perguntou: “Rapaz, você precisa se levantar daí”. Questionou se ele estava sabendo do evento no qual o palestrante principal seria ele, motivou aquele homem a não se vitimizar e a desenvolver plenamente seu potencial. Entretanto, apressadamente, teve que sair, pois precisava verificar se tudo estava dentro dos conformes para sua brilhante apresentação: “Preciso ir, fique bem. Assim que encontrar alguém pelo caminho, imediatamente pedirei socorro”, falou o motivador de auditório.
Logo em seguida, veio um religioso, que estava a caminho da consagração matinal. “Senhor, posso ajudá-lo?” Como aquele homem não lhe respondeu nada, então lhe fez uma oração fervorosa, na qual pedia a ajuda divina para tirar aquele rapaz dos vícios. “Preciso ir, hoje a liturgia está sob minha responsabilidade”, prometendo-lhe contínuas orações.
Como era época de campanha eleitoral, vinha por aquela mesma avenida um político com vários santinhos nas mãos: “Amigo, o que aconteceu contigo?”, perguntou-lhe. Imediatamente, chamou três assessores de campanha e começou a aproveitar a situação: abraçou o rapaz, beijou-o, sujou sua camisa com o sangue que corria da face daquela vítima – com todos os seus movimentos milimetricamente filmados e fotografados. Imputou aquele incidente à má gestão do seu rival, prometeu que, se eleito, mudaria todo aquele quadro e, após garantir material suficiente para seu marketing, retirou-se sem prestar socorro.
Por fim, veio uma enfermeira que todos os dias passava por ali. Ao vê-lo caído, imediatamente foi ao seu encontro, abriu sua bolsa na qual estava seu kit de primeiros socorros, atou suas feridas, chamou uma ambulância, esperou a ajuda chegar e o acompanhou até o pronto socorro – só saiu do seu lado quando o médico disse: “O estado do paciente é estável”.
Enquanto a enfermeira cuidava daquele homem, simultaneamente, o coach dizia em sua palestra ser solidário ao rapaz caído na sarjeta (talvez fosse um mendigo), o religioso em seu sermão advertia os fiéis sobre a importância de se afastar dos vícios (e como acabara de orar por um ébrio caído no caminho), e o candidato, por sua vez, nas suas redes beatificava todas as suas virtudes, enaltecendo suas boas intenções.
Ao receber alta médica, aquele homem leu o capítulo 10 do Evangelho escrito pelo médico Lucas e viu com outros olhos o que era ser, de fato, o próximo de alguém, como o Bom Samaritano foi na parábola.
Pr. Luciano de Oliveira Teles